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Quero dar a voz do rock que nos foi roubada, diz Lobão, que revê anos 80 em álbum

Lobão acha que já fizeram muita coisa errada com o rock. Até mesmo no período em que o gênero ganhou sua maior popularidade no Brasil, nos anos 1980, num movimento do qual se considera sócio-fundador. 
Agora, o músico faz uma revisão carinhosa desse cancioneiro, em disco e show.

No sábado (5), ele apresenta na Audio, em São Paulo, muitas das 25 faixas de “Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock”. 

O disco independente, que sai em CD, vinil e nas plataformas digitais em junho, traz uma cara mais rock às canções gravadas originalmente entre 1980 e 1989 por colegas de geração de Lobão. Pode ser no pop sofisticado de Guilherme Arantes ou no punk acelerado dos Inocentes.

“Eu quero dar a voz do rock and roll que nos foi roubada”, diz Lobão  no estúdio montado em sua casa, em São Paulo. A frase de efeito faz sentido imediato para quem leu “Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock” (Leya), lançado em 2017, no qual fica evidente sua convicção sobre o erro dos produtores musicais da época.

Para ele, esses profissionais vinham do trabalho com artistas de MPB e não sabiam gravar corretamente os grupos de rock. “Eu não consigo ouvir meus discos da época. Tudo soava meio iê-iê-iê. Essas regravações vão reiterar o que escrevi no livro. Eu me espantei, depois de fazer tantas resenhas dos discos para o livro, com a qualidade das músicas, da perenidade delas.”

“E não são músicas gerenciadas por esse coronelato que existiu antes desse período na MPB e continuou existindo depois, até hoje.” 

Lobão atira contra desafetos célebres, como Caetano Veloso e Chico Buarque. 

“Eles nunca foram meus ídolos. As pessoas dizem ‘você fala mal do Chico Buarque porque tem inveja’. Meu, elas não podem imaginar meu desprezo pelo Chico. Tenho influência do Paulinho da Viola, e muita, mas não do Chico.”

Lobão se entusiasma com as músicas. “Eu mesmo demorei 30 anos para sentir essa qualidade, porque as gravações originais são péssimas, e outras regravações são até piores. Marisa Monte regravando Titãs é uma coisa horrível. Eu quis fazer um disco de luxo, com produção esmerada.”

A opção pelo rock básico tem exceções. “Somos Quem Podemos Ser”, do Engenheiros do Hawaii, tem sofisticação, parece Clube da Esquina. “Planeta Água”, de Guilherme Arantes, ficou uma moda de viola.

“Botei duas vozes, para ficar sertanejo mesmo, e a segunda parte vira meio Queen. Ficou bonita. Nessas 25 músicas não tem provocação. Só coloquei músicas com as quais eu me emociono profundamente.”

Lobão admite que começou a escrever o livro para detonar os anos 1980. “Para mim foi um período detestável. Fui preso, perdi Cazuza, meus discos da época são execráveis. Mas fiquei tomado pela qualidade das músicas”, diz. “Eu me emocionei muito, sabe? Chorei muito, as músicas me possuíram. Fiquei surpreso.” 

Ele afirma que esse envolvimento foi independente de sua ligação com os artistas. Teria sentido o mesmo com as canções de Cazuza, que foi seu parceiro e amigo próximo, e com as de Herbert Vianna, dos Paralamas, com o qual teve um longo histórico de brigas e provocações.

Lobão mostrou sua versão de “Lanterna dos Afogados” para João Barone, num encontro em Niterói, e o baterista dos Paralamas gostou.

Fê Lemos, do Capital Inicial, postou em redes sociais que achou fantástico o arranjo de Lobão para “Leve Desespero”. Diz que teve aprovação também de Marina Lima, de Clemente (dos Inocentes e da Plebe Rude) e do Ira!, banda da qual gravou duas faixas. “O Nasi esteve no meu estúdio e chorou! Disse que eu tinha conseguido fazer Ira! puro.”

Ele conta que algumas escolhas iniciais não deram certo. 

“Tentei ‘Índios’, da Legião, mas no fim achei a letra uma porcaria. Tentei o Ritchie, mas, quando chegou na hora de cantar ‘abajur cor de carne’, vi que não conseguiria falar esse verso, não tenho cara de pau para isso.”

 
MÚSICO ESPERA QUE MEMÓRIA AFETIVA REABRA OPORTUNIDADES

Com músicas na memória afetiva do público, Lobão espera uma agenda melhor de apresentações, já que sua forte atuação contra Lula nas redes sociais nos últimos anos provocou cancelamentos de shows.
A prisão recente do ex-presidente incentivou cutucões a Lobão na internet, depois de um período em que pouco postou sobre política.

Segundo ele, estava ocupado das três da manhã às dez da noite gravando no estúdio.

No disco e no show, ele toca com Os Eremitas da Montanha: Armando Cardoso (bateria), Augusto Passos (baixo e voz), Christian Dias (guitarra) e Felipe Faraco (teclados). 

O recolhimento na música, diz Lobão, foi sua resposta aos rumos da política nacional. 

“A oposição ao PT ficou uma colcha de retalhos. Passei quatro anos tentando unir cabeças, mas um movimento de rua ataca outro. Estou desanimado com o futuro político do Brasil, para não dizer outra coisa. Acho que estamos indo para o brejo mesmo. Não vejo muita saída e, por essas e outras, eu me recolhi.”

Lobão disse na internet ter ficado feliz com a prisão de Lula. “Disseram que vou sentir o sangue na boca quando a foice e o martelo entrarem na minha casa. Puxa, é cafonérrimo. Além de demente, é cafonérrimo!”

 

Setlist

“Orra Meu” (Rita Lee)
“Planeta Água” (Guilherme Arantes)
“Vítima do Amor” (Blitz)
“Nosso Louco Amor” (Gang 90)
“Certas Coisas” (Lulu Santos)
“Eu Não Matei Joana d’Arc” (Camisa de Vênus)
“Geração Coca-Cola” (Legião)
“Primeiros Erros” (Kiko Zambianchi)
“Leve Desespero” (Capital Inicial)
“Louras Geladas” (RPM)
“Nós Vamos Invadir Sua Praia” (Ultraje)
“Núcleo Base” (Ira!)
“Até Quando Esperar” (Plebe Rude)
“Dias de Luta” (Ira!), “Toda Forma de Poder” (Engenheiros)
“Pânico em SP” (Inocentes)
“Eu Sei” (Legião)
“Vida Bandida” (Lobão)
“Virgem” (Marina Lima)
“Esfinge de Estilhaços” (Lobão)
“Quase um Segundo” (Paralamas)
“Somos Quem Podemos Ser” (Engenheiros)
“O Tempo Não Para” (Cazuza)
“Lanterna dos Afogados” (Paralamas)
“Azul e Amarelo” (Cazuza) 

 

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